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Lendas e crendices de Silves

 

Lenda da Moura Encantada

Depois da conquista cristã formou-se no povo de Silves uma lenda que ainda hoje perdura. Na noite de S. João, à meia-noite, aparece na Cisterna Grande do Castelo (Cisterna chamada Mourisca) uma moura encantada, navegando sobre as águas numa barca de prata com remos de ouro e entoando hinos da sua raça. É uma princesa encantada que aguarda a chegada de um príncipe da sua fé que pronuncie as palavras necessárias para o desencanto. Em parte sobre o tema desta lenda, forjou Lorjó Tavares a sua opereta “A Moura de Silves “ cuja parte musical foi escrita pelo Maestro Guerreiro. Essa peça, levada à cena no Teatro da Trindade, em Lisboa, não tem qualquer espécie de elevação. A lenda da moura de Silves aguarda ainda quem a saiba aproveitar poeticamente. Luís Chaves tem uma novela sob o título “A Moira de Silves“, mas tal novela não mantém relação apreciável com a substância poética desta lenda, na verdade interessante e autêntica.

 

Lenda dos Talismanes

Ao Alcacer Axarajibe que existiu no local onde presentemente se encontra o castelo de Silves foi atribuída uma interessante lenda a que faz alusão a evocação de Ibne Cacane e que constitui o motivo das suas comparações imaginosas e oitirâmbicas. Segundo essa lenda, existiram enterrados no Castelo uns talismanes que quando aí se encontravam no seu esconderijo faziam a grandeza do Castelo, mas quando d’ai eram retirados, isso provocava a sua ruína. Tal lenda tem o seu fundamento no costume oriental de se colocar sempre uns talismanes sob o edifício que se constrói para lhe das sorte. Pode-se, com verdade, perguntar quem teria retirado do Castelo esses talismanes preciosos para que ele tivesse estado reduzido a ruínas durante tanto tempo e que se passa agora com os talismanes para que apresente um aspecto remoçado.

 

Lenda das Amendoeiras

É muito antiga esta lenda e foi atribuída a muitas regiões. Parece que tem s suas origens mais remotas na Pérsia, pais tradicional de amendoeiras e de gentileza. No entanto, ela surge também na Turquia e em todo o Próximo Oriente. Em Espanha foi atribuída à cidade de Córdova e a Sevilha. No Garbe português foi atribuída a Silves. Um rei mulçumano, Al-Mo´tamide ou Aben Mafom, teria mandado plantar pelos montes em volta do seu castelo, amendoeiras em enorme quantidade para satisfazer os desejos de sua esposa, um cristã do Norte que morria de saudades por não ver a neve dos altos píncaros. Uma vez despontadas as flores, a princesa, vendo tudo de branco coberto, passou a sentir-se como em sua casa e não mais pensou em voltar ao seu país. Hoje, as amendoeiras invadiram toda a cerca do Castelo de Silves, transformando o Castelo, na época própria, num enorme açafate de flores brancas com leves tonalidades de róseo. A princesa, se ainda hoje vivesse, poderia brincar com as flores de amendoeira como com os flocos de neve.

 

Lenda do Mouro de Chapéu de Aba Larga

Segundo Ataíde de Oliveira, há também, no Castelo de Silves, a lenda de um mouro encantado. Ele apareceria, com o seu amplo chapéu de aba larga, de manha, na porta norte do Castelo, desafiando as pobres lavadeiras que iam lavar às pequenas toalhas de água que por ai surgiam. Dum modo geral, as lavadeiras faziam-lhe surriada e então ele vingava-se fazendo desencadear-se sobre elas torrenciais chuvas de pedra. Quando no Castelo foram instaladas as prisões, o mouro de chapéu de aba larga desapareceu. No entanto, os presos diziam que todas as noites sentiam, pela meia-noite, um estremecimento em todo o Castelo e ouviam, até de madrugada, o mouro remexendo em papeis velhos.

 

Lenda da Zorra Berradeira

É também lenda muito antiga de Silves a da Zorra Berradeira. Segundo esta lenda havia no Odelouca uma zorra berradeira que durante a noite atoava os ares com os seus berros. A zorra berradeira era um verdadeiro monstro. Com o aspecto de cabra, tinha silvos de fúria. Os seus berros, de noite, anunciavam desgraça iminente. Ninguém os queria ouvir. Contavam-se casos de pessoas que os tinham ouvido e logo, lhes haviam sucedido tremendos desastres, sobretudo mortes de entes queridos.

 

Lenda da Velha das Castanhas

No cerro, a ocidente da foz do Odelouca e em frente da Ilha de Nossa Senhora do Rosário existe uma furna conhecida por Furna da Velha das Castanhas. Diz-se que vivia aí uma velha muito feia e má que estava sempre assando castanhas. Quando algum barco aí passava, descendo o rio, deviam os que fossem nele, lançar-lhe uma moeda, sem o que a velha fazia bruxaria e metia o barco ao fundo. Esta lenda parece ter a sua origem num imposto de portagem, mas, por outro lado, liga-se misteriosamente com a da Zorra Berradeira, pois a furna tem também o nome de furna da zorra.

 

Lenda do Pego do Pulo

O Pego do Pulo, segundo informação, fica junto da Fonte Nova, na curva que o rio Arade faz, depois do Cais, para tomar o rumo de Matamouros. Diz a lenda que aí morreu Aben Afom, último Rei Árabe de Silves, quando procurava a salvação na fuga. Homens antigos de Silves asseguravam que à meia noite, na noite de S. João, se ouvia nitidamente nesse local, o ruído do galope do cavalo de Aben Afom até ao Pego, depois alguém bradar “ salta meu cavalo! “ e finalmente, o estrondo da queda do cavalo na água e o tropel do cavalo e do cavaleiro, enquanto outros galopavam fugindo dos portugueses.

 

Lenda do Monte das Cabeças

O Monte das Cabeças, que se ergue frente ao Enxerim, na parte oriental da ribeira, é também cenário de uma lenda ligada à noite de S. João. Cenas macabras aí têm lugar, segundo a tradição. Local de um antigo cemitério mouro, aí se deslocam os espiritas das famílias dos mortos, que nessa noite os vão visitar e aí convivem em animados bailes e festins, que muito amedrontam os habitantes da região, como é fácil de adivinhar. Gente antiga havia, que jurava a pés juntos ter assistido a esta lúgubre e aterradora visão.

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